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Acredito que tenha sido ontem que estava voltando do trabalho e me deparei com o rotineiro cerco policial montado ao fim da Avenida dos Palmares. Tudo como de costume, digno de cenas policiais Hollywoodianas de deixar CSI’s no chinelo.. toda a parafernalha no chão. Giz marcando o asfalto, fitas amarelas nos postes e aquela multidão em hora do almoço dando seu veredito pro que pode ter acontecido. Teria eu passado de longe se não tivesse algo de estranho pairando no ar. De alguma forma um sentimento inexplicável de culpa tomou conta de mim.. antes de pensar duas vezes estava com meu carro estacionado enquanto meu peito se envolvia em taquicardia. O tempo se fechou, era como se Deus tivesse perdido um filho. Me faltou a força em manter os olhos acordados. Fui tomado por uma voz gritando, algo aos berros que deveria me aproximar da situação.. perdendo a capacidade de discernimento estava lá eu de frente ao corpo branco gelado caido no asfalto quente. Meio dia e aqueles olhos azuis adentrando meu psicológico como uma faca. Havia asas, sandálias de couro e um conjunto dourado de arco e flecha. Era o cupido. O anjo santo do amor e das causas apaixonadas.. causador do caos e distribuidor de platonismo. Aquele menino travesso ao qual sempre me indaguei do por quê diabos um Ser Divino daria tamanho poder nas mãos de um inconsequente destrambelhado! Sorte no emprego, bons amigos e cervejas geladas, não tendo porquês de reclamar da vida transformei-o em inimigo número um.. arriscaria em dizer que talvez por esses tempos aquela cena seria motivo de orgulho e felicidade; mas não havia do que comemorar, aqueles olhos azuis abalaram minha maldita condição de fragilidade humana. Alguns cochichavam que um raio o havia atingido, outros que algum desiludido de sentimentos tenha dado um tiro certeiro.. os céticos apenas duvidavam. Um caso a parte, eu estava certo de que era culpado; mãos trêmulas e a vida passava corrida em um minuto. No dia anterior, após choramingos dessas noites de sexta-feira que a gente se sente sozinho, desejei com todas as forças, esperneando ao bafo de Gin que aquele atrevido das tais flechas tivesse um desfecho digno de suas crueldades para com esse pobre mortal. Coincidência azarada do destino não pude chegar na hora do almoço naquela segunda-feira, estava na Avenida dos Palmares diante de meu crime. Eu havia matado o cupido. Acabara de estassalhar os corações adolescentes com um único pedido de minha revolta. 


A causa de meus piores pesadelos não parecia tão assustadora; era apenas um menino travesso que não media a gravidade de seus erros. ‘Foi você, foi você’ aquela intermitente voz ecoava em minha cabeça. Tudo pareceu razoável e digno de perdão, afinal se eu tivesse tamanho poder nas mãos talvez o estrago fosse maior, mas ele.. era apenas uma criança. E antes que pudesse terminar minhas analogias e hipóteses de ‘e se..’, os olhos azuis se viraram. Nos olhou assustado sem entender muito da situação. Não indagou nada nem ninguém. Alçou voo e desapareceu na imensidão dos Céus.

Estarrecido com a insanidade de minha vivência, apenas segui meu rumo fingindo que nada havia acontecido. Abraço nos filhos, beijo na mulher e macarronada na janta. ‘Foi o trânsito’ eu disse; tudo como deveria ser.

Mas entre mim eu sabia, por momentos havia matado o amor.  

                                                    CaianGago

28/05/2012 - 12:26am | 3 notes | . | {reblogue this} |  Hey Lyla ! #

Se o verão passa essa aparência alegre e disposta a tudo, o inverno deve ter sido o irmão com algum trauma na infância. Estou por me desdenhar a procura de alguém tão deveras mal criado.. pois veja que acordo aos sorrisos, abro-me ao mundo e eis aquele inerte tempo fechado! Parece até gozação de São Pedro, que por ventura acorda de mal humor e não quer mais saber de poesia. 


Em tempos difíceis perceba que até os Santos andam egocêntricos. 
Agora imagine como caminha a vida aqui embaixo meu amor..

                                                    CaianGago    

24/05/2012 - 11:59pm | 0 notes | . | {reblogue this} |  Hey Lyla ! #

Anonymous
"Ter um grande amor e se sentir sozinho machuca muito mais do que não ter ninguém." tu se garante mtttt fdp kkkk 

Que nada amigo, a gente junta uma ideia daqui, coloca um conectivo ali, conjuga os verbos, tenta dar sentido e posta.. kkk Valeu Gil!


Anonymous
Volta a escrever!! :/ 

Tava em baixa de idéias, mas vou fazer uma forcinha, a faculdade tá em greve e não resta muito mais o que ser feito kkk Obrigado!


nycecarvalho
Pois é, Cai, sempre arrancando lágrimas desses olhos aqui. "As luzes abaixam e envolvem o ambiente de azul, começa-se ‘Don’t Look Back in Anger’ e ali estava eu.. tão pequeno, vivendo meu sonho." Genial! Como disse nosso Deus, "Fucking Brilliant!". Parabéns, tua volta ao Tumblr foi extraordinária, assim como a volta do Gallagher ao Rio de Janeiro, ao Brasil. Vê se não some de novo ;) 

Juro que não sei o que vocês conseguem enxergar aqui, gostaria que me passassem a receita desses óculos. Mas como sempre, caindo aos caprichos de elogios, muito obrigado nylcezinha! Essas coisas que dão saudade de colocar caneta no papel. Sei que dava de tudo pra estar lá também e que ficou aqui na torcida pela minha jornada. Vou tentar não sumir, não sei. Quem sabe? haha Beijo!


Não, este não é mais um texto de amor. Após tanto tempo por esse mundo ai sumido, não voltei pra expelir mágoa de coração alheio ou arrancar suspiros de menininha que por ventura me acompanhe. Por ora, lógico.

Depois de 3 anos de criação, já é tempo de honrar o nome que esse espaço sempre carregou. Sim, ele que acompanhou todas as fases dessa adolescência conturbada entre começos e fins, hoje é chegada sua hora, Lyla. Você que último dia 16 completou 7 anos de vida deve estar com saudade de seus criadores tão quanto eu. Fica aqui meu relato, minha história pra saciar (ou aumentar) nostalgia.

Ás 19 horas do dia 3 de Maio de 2012, começa sem nenhuma glória minha jornada para encontrar Deus. Caminhei até o fim da Av Voluntários da Pátria em Botafogo e consegui um táxi rapidamente pro Vivo Rio, mantendo a tradição do bom e velho carioca, conversei sobre futebol com o Vascaíno mais gente boa que encontrei por esses tempos (lógico que tive que abaixar a cabeça como flamenguista que sou, meu time estava de férias) e sem perceber eu já me encontrava de frente ao local do show. A fila era algo quilométrico, por sorte meu passe era VIP e pude ficar na frente de 90% das pessoas que ali estavam (atrás apenas da imprensa e convidados). A atmosfera era algo incrível, único.. eram umas 5.000 pessoas loucas e apaixonadas por Oasis em um espaço só. Cada um com sua camiseta e cartaz, alguns tentando a sorte com o velho Gallagher pedindo pra que ‘ele parasse de ser talentoso e fosse ser seu’; deixando o orgulho de lado pude perceber que não sou o único insano a habitar terras tupiniquins. O fã de Oasis é diferente, não é Luan Santana, não é Red Hot Chili Peppers, Justin Bieber ou Rolling Stones.. o cara sisma em tentar usar cabelo londrino, camisa social, sapatênis, iPod e gola curta. Sem temer, posso dizer que me enquadro nesse grupo de iludidos, mas eu estava em casa.


Entro no Vivo Rio, o front-stage era algo totalmente seleto, deveria caber umas 1000 pessoas no máximo e não havia grade de divisão entre o palco. Isso significava que estávamos literalmente beijando o pé de Deus. Uns 10 metros na frente do microfone pude me acomodar tranquilamente com total conforto. Achei interessante o fato que também sozinho, ao meu lado estava um cara com uns 50 anos (devia ter 1,90 de altura) com o cabelo todo grisalho, e aparência séria, arrogante eu diria.. mas o coroa não deixava escapar uma palavra quando Noel emplacava uma clássica do Oasis. Com pontualidade britânica exatamente 21:00, ao som de ‘It’s Good to be Free’ entra Noel Gallagher em meio ao show de luzes, nariz empinado e quieto até a 3ª música como de costume. Antes de ‘If I Had a Gun’, um singelo ‘Obrigado, It’s good to be back in Rio’ arrancou gritos orgásticos por todos os 4 lados (o cara é o único homem do mundo a conseguir mulheres a terem orgasmos de longe like a chief). O show continua impecável, alternando entre acenos pro camarote e atenção para os cartazes que estavam levantados. O público do Rio de Janeiro foi algo surpreendente, eu que estava na frente mal podia ouvi-lo cantar, até mesmo os solos de guitarra eram acompanhados de coro. O ponto ápice foi a originalidade de terem emplacado o hino do City juntamente com um poznan e Octopus Garden após Whatever, o que conseguiu arrancar uma sambadinha (horrivel por sinal, rs) única do Mestre. Então se seguiram as clássicas Oasis Supersonic (na versão mais linda que pude ouvir e com direito a jogar ineditamente o refrão para o público), Talk Tonight e Mucky Fingers. 


Pausa para o Bis, a banda sai do palco intensamente aplaudida. Posso ouvir algo crescendo ao fundo, bem baixo.. ao que percebo que entre o intervalo de 5 segundos a casa inteira estava tomada por uma única só intensa voz de ‘Rockin Chair’, uma b-side de 1995, a qual eu não tinha a menor ideia de que TANTA gente conhecesse por inteira! Foi inacreditável, estarrecedor..  Noel voltou no mesmo momento, aplaudindo freneticamente e parado olhando para nós, ao que coloca a mão no queixo e fala ‘Fucking Brilliant’ o Rio de Janeiro teve a certeza de que estava fazendo história (o que se concretizou no dia seguinte, em seu blog oficial declarou que o show estava entre os top 10 da carreira). Começa Little by Little e mais uma sequência de 3 até o conhecido final.. ‘We have time for one more? You were great Rio, is always a pleasure to play here.. I’ll be back.’As luzes abaixam e envolvem o ambiente de azul, começa-se ‘Don’t Look Back in Anger’ e ali estava eu.. tão pequeno, vivendo meu sonho. 


Feliz aniversário Lyla.  

                                                    CaianGago    

21/05/2012 - 10:58pm | 1 note | . | {reblogue this} |  Hey Lyla ! # Noel Gallagher #

A música cessou e teimas em não querer ir embora. Todos estão em casa brindando e o que resta a ti? São dezenas desses copos esparramados pelo chão, há muito caco de sentimento para limpar.. a manhã já anuncia sua chegada, o Sol irradia luz e nada além dela; hoje a alegria esqueceu de vir junto. Talvez tenha se perdido pelo caminho. É longe até aqui, deu preguiça, deu cansaço.. má vontade, vai saber. Talvez tenha se aposentado, mas essa é uma possibilidade qual não quero imaginar por agora, os tempos andam difíceis senhor, você sabe. As pequenas em suas janelas andam acordando tão tarde, não há flores nem acenos nesses novos entardeceres de outono! Ah, o outono.. pra que? Anos vem acumulando já tantos carnavais e não me conformo com todo esse cinza e marrom.. me parece que o outono gosta de toda essa melancolia, um sádico procurando estragar o amor dos outros. Não tão quente que lhe permita dar voltas ao parque com sua amada; mas não tão frio que dormir coberto por abraços e cabelos ondulados soe como opção contra algo. Tome por conselho que se apaixone no inverno, então terás tempo até a primeira crise, tantas folhas caídas no chão não parecem romance desse lado poético da vida querida.. pois felizes são as paixões que passam de março e sobrevivem até junho, estes guardaram filmes e chocolates suficientes. 

Eu, bem.. me resguardo de mim mesmo, minha amada.
Se não me controlo estou logo mais saindo por ai cantando um velho Jazz para uma nova paixão. Mas isso não funciona nos dias de hoje, não mais como com minhas primeiras e arriscadas namoradas.. os tempos mudaram e temo por não ter acompanhado ele regredir. Mas prefiro ser amante sozinho do que me conformar com essa falta de acenos para as pequenas nas janelas!
Ah.. minhas pequenas na janela.. 

                                                    CaianGago  

23/11/2011 - 9:06pm | 7 notes | . | {reblogue this} |  Hey Lyla ! #

surviveuntiltomorrow
escreve muito, e ainda inspira a gente! Parabéns (: 

Poder inspirar alguém é de longe a maior conquista de qualquer pessoa que arrisque a escrever, me realiza ler algo assim! Já lhe mandei uma ask uma vez elogiando seu Tumblr, acho inteligente seus reblogs, a maneira como os seleciona; me identifico muito. E obrigado, mesmo!


dreamingfurther
Melhor trecho que já li: "E assim foi-se decidido sem perguntas, sem complicações, sem igrejas e padres. Se entendiam em meio ao improvável e incomum." E ainda tem gente idolatrando Caio Fernando de Abreu e Tati Bernardi. 

Acho o Caio F. um gênio, só acredito que esteja sendo muito banalizado nas bocas adolescentes de hoje em dia.. De qualquer forma ver um elogio direcionado a mim ao lado do nome dele é uma honra sem descrição. Obrigado, de verdade!


Não se esconda nas sombras achando que está se resguardando de algo, menina. O Sol pode arder em dias alternadamente quentes mas não é capaz de queimar seu coração mais do que todo esse amor reprimido. Nada é divinamente tão forte ao ponto de causar tantos estragos quanto esse caos desorganizando você. Não precisa se explicar nem dizer que estou delirando; sei que não é óbvio imaginar o que andas passando.. e admito dever-lhe elogios pela forma fantástica como consegue esconder seu sofrimento do mundo. Toda essa maquiagem e poemas de impacto que anda pronunciando não te torna algo além de uma profeta forçando circunstância. Então não me venda esse sorriso forçado, não alugue seu tempo disponível para essas conversas sem futuro que não te levam um passo a frente de onde começou. É hora da reviravolta, o tornado sequer ameaçou vir e teimas em dizer que ainda não foi embora! Tanta lágrima pra que, pequena? Por amor? Não repitas isso jamais, esse é incapaz de causar sofrimento; é um coitado que leva a culpa das ilusões que criamos por quem não vale a pena. 

Abra essa janela que o vento quer entrar e refrescar suas ideias.
Uma nova ideologia combina com aquele seu vestido azul com cara de sexta-feira;
o mundo te quer bem porque hoje pode ser todo seu.
Prove de novos sonhos, novas bebidas, novas risadas..

Prove de mim, menina.

                                         CaianGago 

21/11/2011 - 9:34pm | 7 notes | . | {reblogue this} |  Hey Lyla ! #

Veja só meu bom homem que consegui trocar meu coração! Eu que já não aguentava o peso das paixões acumuladas de toda vida, resolvi por jogar o bendito fora. Logo eu que nunca fui cardíaco, dei ao ingrato a melhor das saúdes, ao que este me devolve as dores de todas as noites. Pois me decidi e digo-lhe inútil bomba sanguínea, cansei-me de ti. Acordei cedo pra esperada cirurgia e eis que me deparo com um consultório vazio, meu médico ao meu aguardo indaga:

- Pra que queres trocar seu coração? É de invejável estado o que se encontra, pense em todos os safenados que dariam a vida por te-lo no peito!
- Pois diga à estes que a dor de um infarto não supera a de um amor mal acabado. Eu que me entendo antes de dormir com este mal agradecido. Pois veja Doutor que sempre perdoei tudo. Vi o bom onde prevalecia o mal, levei flores aos jardins secos, aguei as macieiras de minha amada, caixas de chocolates para as pequenas debruçadas em suas janelas, dei cor aos pálidos e palavras sábias aos necessitados.. Mas cansei Seu Doutor, já usei demais dos sentimentos. Não me interessa mais. Apenas quero dormir e acordar sem lembrar de ninguém, não creio que para a avançada medicina esteja por pedir muito!

Sem mais demoras acordei em uma cama coberto com um lençol fino e florido. Haviam-me trocado aquele velho teimoso por um jovem leve, talvez um pouco frágil, mas alegre. Eis que entra o médico na sala e pergunta:

- Pois então, o que farás com seu antigo coração? Acredito valer muito.
- Por favor Doutor, jogue-o fora. Não me interessa o dinheiro. Não coloque-o a venda pois este nem para doação presta! É um covarde que ataca quando menos espera, um órgão capaz de amar não deveria mais de existir. Dê-lhe logo sumiço antes que algum desavisado faça alguma besteira.
- Tempos difíceis, senhor?
- Invernos caro Doutor. Invernos. 

                                         CaianGago 

22/10/2011 - 9:30pm | 7 notes | . | {reblogue this} |  Hey Lyla ! #

nu-oneindig
Acho que lá se foi todo dom de ultimo romantico do mundo! Tudo que você escreve são fatos, a diferença é sua visão em relação a isso, e o mais importante é que está explicito o quanto você acredita nos detalhes desses tais fatos que raramente são valorizados hoje em dia! Sou suspeita pra falar, mas você é admirável mesmo :) 

Poxa meu amor, que lindas as suas palavras velho! Mexeram profundamente comigo; não mereço, rs. Escrevo o que me dá na cabeça, independente de qualquer coisa. São as minhas idéias, muitas vezes acho que estou escrevendo pra mim mesmo, que muita gente não vai entender.. Então é uma experiência maravilhosa quando vejo que alguém diz ‘poxa caian, você adivinhou o que eu pensava e não conseguia explicar’, isso me move sabe.. Mas à ti, o mais sincero dos obrigados Naiana, muito lindo o que disse!


my-fucking-brain
mano, to te seguindo pelo post: "A todas as meninas" é perfeito, disse tudo que eu sempre pensei aaa, parabéns ;) 

Sério? Achou lá no fundo do baú esse texto, tinha até me esquecido, ele causou polêmica, rs. Mas obrigado de coração, tentei expor ao máximo o que pensava, perfeito saber que concordam com meu ponto de vista. Mais uma vez, obrigado!


12-12pm
Todo o meu respeito por tudo que você escreve. É ótimo, cara! Parabéns mesmo. 

Muito obrigado Janine, de verdade! Ótimo saber que lê e gosta, significa muito pra mim mesmo!


Ele não era nem alto nem baixo. Usava uma pulseira no braço esquerdo -presente de sua falecida avó; nada por vaidade-, gostava de roupas claras como seu cabelo e fazia questão de pendurar o fone de ouvido por de trás do pescoço. Escrevia para o nada, o banco da praça lhe trazia boas recordações. Tomava um café, dois, três, até cansar e simplesmente ir. Não tinha luxos, pagava seus vícios com seu dinheiro, nunca deveu à ninguém. Rapaz em adolescência avançada -o termo que gostava de usar, renegava-se a ser adulto mesmo com a barba no rosto que custava a lhe permitir mentir a idade-, sem idéias bipolarizadas na cabeça. Classe média, aparência média, idéias médias. Tudo médio, como deve ser. 


Ela gostava de seu All Star quadriculado. Falava o que vinha na cabeça, aguardava todo comentário ser dito pelo mero prazer de poder discordar do senso comum ao final -não que realmente pensasse dessa forma, mas agradava a maneira como as pessoas lhe olhavam-. Cabelo preso, cabelo solto, cacheado, atrapalhado e tingido de cores escuras. Não ligava pro cabelo, nunca ligou. Tampouco retornava o celular, não havia de existir mais ausente do mundo; sem maiores preocupações ela vivia sua liberdade. Livre. Solta. Dela e para ela. Podia ter carro mas não tinha, preferia o metrô. Gostava de gente, de ver gente, de sentar junto à desconhecidos e sentir alguém por perto sem que pudesse tocar. 

27 de julho. Sem culpar o destino e abusar de clichês sobre como o amor deve acontecer os dois acabaram por sentar no mesmo banco. Ele buscando as boas recordações em seu rotineiro copo de café; ela a procura das companhias sem conversa, sem toque, sem charme, sem interesse. Desde então não há muito o que ser dito, não existiu coincidência nem troca de olhares. A presença do outro lhes agradava e assim foi-se decidido sem perguntas, sem complicações, sem igrejas e padres. Se entendiam em meio ao improvável e incomum. 

Não foi amor a primeira vista; muito menos houve qualquer atração. Não fizeram juras e mal lembravam o dia de seus próprios aniversários; mas estranhamente quando um adoecia o outro tratava de ficar pior. De alguma forma eram capazes de adivinhar seus pensamentos, traziam o necessário para casa sem ter de abrir a geladeira. Uns diziam que eram feitos um para o outro, mas é mentira. Eram opostos, uma Bossa que de nova não tinha nada. Viviam felizes sem maiores cobranças, melavam seus narizes com brigadeiro e brincavam de correr atrás em volta da mesa de jantar.. 

E foram para sempre, como nunca pretenderam imaginar.


                                         CaianGago  

18/10/2011 - 8:58pm | 6 notes | . | {reblogue this} |  Hey Lyla ! #

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